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30/12/25 - às 11:07
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O kutia é o prato mais simbólico da ceia de Natal ucraniana, conhecida como Sviatei Vetchir, e abre oficialmente a refeição composta por 12 pratos tradicionais. Servido sempre em primeiro lugar, ele concentra significados religiosos, agrícolas e familiares, sendo associado à prosperidade, à proteção espiritual e à continuidade da vida. Entre os rituais mais marcantes está o costume de lançar uma colherada de kutia ao teto, gesto interpretado como presságio de fartura e bons acontecimentos para o ano seguinte.
De acordo com registros etnográficos, a origem do kutia é muito anterior ao cristianismo. O etnógrafo ucraniano Fedir Vovk aponta que o prato remonta ao período Neolítico, quando estava ligado a práticas pagãs relacionadas à colheita, à natureza e ao culto aos ancestrais. Com o passar dos séculos, esses elementos foram incorporados às tradições cristãs, transformando o kutia em parte essencial do Natal ucraniano.
Antes do início da ceia, o prato é colocado no kut, o canto dos ícones da casa, considerado o local mais honroso do lar. A panela com o kutia permanece ali desde o Natal até o Ano Novo e, em tradições mais antigas, até o chamado Ano Novo Antigo, em janeiro. Também é comum que crianças levem porções do prato a avós e padrinhos, como sinal de respeito, união familiar e preservação dos laços entre gerações.
O ponto alto do ritual acontece no começo da ceia. O chefe da família ergue a primeira colherada de kutia, convida simbolicamente as almas dos parentes falecidos a participarem da refeição e, em seguida, lança o alimento ao teto. No meio rural, a leitura desse gesto era detalhada: quanto mais grãos grudassem, maior seria a fartura de colheitas, animais e produção doméstica no ano seguinte. Nas cidades, o ato passou a representar, de forma mais ampla, prosperidade e a lembrança das raízes camponesas.
Somente após esse ritual todos provam o kutia e os demais pratos são servidos. Ao final da ceia, o alimento permanece sobre a mesa durante a noite, com colheres, para que os ancestrais possam, simbolicamente, partilhar da refeição, garantindo harmonia e proteção ao longo do ano.
Os ingredientes tradicionais do kutia são trigo cozido, sementes de papoula e mel, podendo receber nozes, frutas secas e passas. Cada elemento carrega um significado próprio: o trigo simboliza a vida e a continuidade, o mel representa a doçura e a graça divina, a papoula está ligada à abundância e à fertilidade, e as nozes à força e à proteção. Por estar associado ao jejum rigoroso da véspera de Natal nas tradições ortodoxa e católica de rito bizantino, o preparo original não leva leite, ovos ou outros produtos de origem animal.
Fora do contexto litúrgico, especialmente nas comunidades da diáspora, o prato passou por adaptações. No Brasil, é comum encontrar versões feitas com leite, leite condensado ou creme de leite, resultado da influência da culinária local e da transmissão oral das receitas. Há ainda variações regionais que substituem o trigo por cevada ou milho-miúdo, sem que o simbolismo do prato seja perdido.
A ucraniana Yulia Mysko, que voltou recentemente a morar em Ternopil após 18 anos vivendo fora, relata a emoção de retomar essa tradição junto à família. “Acredito que não passo Natal com a minha família desde quando moro fora do país, há quase 18 anos. Há pouco mais de uma semana voltei a morar na Ucrânia, de volta às raízes. Esse ano participei ativamente do preparo da kutiá. Minha mãe mostrava, explicava tudo e deixou eu executar algumas etapas”, conta. Segundo ela, o prato esteve presente durante vários dias: “Comemos como primeiro prato da ceia. No dia 25, o café da manhã foi a kutiá, e nos dias seguintes continuamos comendo. Com o passar do tempo, o sabor só melhorava”.
Mais do que um alimento, o kutia é um elo entre passado e presente. Ao atravessar séculos e fronteiras, o prato permanece como um dos símbolos mais profundos do Natal ucraniano, reunindo fé, memória ancestral e a esperança de fartura, proteção e continuidade da vida.
