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27/01/26 - às 09:35
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Entre colinas cobertas por mata fechada, estradas de chão batido e o silêncio profundo que envolve o interior de Prudentópolis quando a noite avança, sobrevive uma das lendas mais antigas e respeitadas do município: a Procissão das Almas. Preservada pela tradição oral e transmitida de geração em geração, sobretudo nas comunidades rurais, essa narrativa mistura fé, mistério e religiosidade popular, fazendo parte do imaginário coletivo local.
Segundo os moradores mais antigos, a Procissão das Almas não é algo que se vê, mas algo que se sente. Ela costuma ocorrer nas noites mais silenciosas, geralmente após a meia-noite, quando o vento parece cessar e até os sons da natureza se tornam raros. É nesse momento que alguns relatam ouvir passos compassados, lentos e ritmados, como se um grande grupo caminhasse em conjunto pelas estradas do interior.
Junto aos passos, surgem sons ainda mais marcantes: orações sussurradas, murmúrios semelhantes a ladainhas antigas, preces repetidas em tom baixo, como pedidos de descanso eterno. O mais intrigante, segundo os relatos, é que ao olhar para a estrada não há ninguém. Nenhuma luz, nenhuma sombra, nenhum sinal visível de presença humana. Ainda assim, os sons persistem por alguns minutos, atravessando porteiras, curvas e trilhas antigas, como se uma multidão invisível seguisse um caminho traçado há muito tempo.
Para a tradição popular, essa procissão seria formada pelas almas dos falecidos, especialmente daqueles que viveram, trabalharam e morreram no interior do município. Muitos teriam sido sepultados em cemitérios antigos, alguns já tomados pelo tempo, enquanto outros sequer tiveram seus túmulos preservados. A crença é de que essas almas percorrem as mesmas estradas que um dia fizeram parte de suas rotinas, repetindo um ritual de fé, penitência ou despedida.
A lenda também estabelece regras claras de respeito. Os moradores ensinam que ninguém deve tentar interromper, seguir ou observar a Procissão das Almas de forma desrespeitosa. Ao ouvir os passos ou as orações, o recomendado é permanecer em silêncio, fazer o sinal da cruz e rezar. Há quem diga que pessoas que zombam da situação ou tentam desafiar a procissão acabam sentindo um frio intenso, um peso no corpo ou um medo difícil de explicar.
Em muitas famílias, ainda existe o costume de não sair de casa nesses horários, principalmente crianças e idosos. Portas são fechadas, luzes apagadas e o ambiente entra em recolhimento, como forma de respeito e proteção. Para os mais religiosos, a procissão não é vista como algo maligno, mas como uma manifestação espiritual ligada à fé cristã, lembrando antigas práticas de oração pelas almas do purgatório.
Mais do que uma história envolta em mistério, a Procissão das Almas funciona como uma poderosa memória cultural. Ela remete a um tempo em que as comunidades rurais eram mais unidas, quando a fé fazia parte do cotidiano e os mortos eram lembrados com mais frequência. Em uma época sem eletricidade, com estradas pouco movimentadas e noites profundamente silenciosas, qualquer som ganhava força, alimentando o imaginário popular.
Mesmo com a modernidade, o avanço da tecnologia e as mudanças no modo de vida, a lenda segue viva no interior de Prudentópolis. Há quem afirme que ainda hoje é possível ouvir os passos e as orações, especialmente em noites de lua fraca ou em datas religiosas marcantes, como o Dia de Finados ou a Semana Santa.
Assim, a Procissão das Almas permanece como um dos relatos mais simbólicos da cultura popular do município. Mais do que provocar medo, ela representa respeito, fé e lembrança, reforçando a ideia de que os mortos continuam fazendo parte da comunidade e que as estradas do interior guardam histórias que o tempo não consegue apagar. Ecoando em silêncio pelas noites do campo, a lenda segue atravessando gerações e mantendo viva a memória espiritual de Prudentópolis.