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29/01/26 - às 09:16
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Depois de mais de uma década longe do país natal, a ucraniana Yulia Mysko, de 37 anos, voltou a celebrar o Natal em Ternopil, no oeste da Ucrânia. Morando no Brasil há 13 anos e meio, período em que viveu em Curitiba e Belo Horizonte, ela decidiu retornar ao país em dezembro de 2025 com o objetivo de passar mais tempo junto da família. O reencontro com as tradições natalinas marcou seu primeiro Natal em solo ucraniano desde 2012 e trouxe à tona lembranças, emoções e reflexões sobre identidade cultural, fé e pertencimento.
A chegada em pleno inverno foi, por si só, simbólica. Diferente das visitas anteriores, feitas apenas em períodos mais quentes, Yulia vivenciou a estação fria completa. A primeira neve caiu justamente no dia do Natal, intensificando as sensações de retorno à infância. “São pequenos detalhes que despertam muitas memórias”, relatou. Segundo ela, a cada dia a paisagem se transforma com novas camadas de neve, reforçando o clima típico das festas de fim de ano no país.

Os preparativos começaram dias antes da celebração. A ceia natalina foi acompanhada de perto por Yulia, que fez questão de observar a mãe cozinhar cada prato tradicional, anotando receitas em um caderno e registrando tudo em fotos e vídeos. Ela participou diretamente do preparo do uzvar, bebida feita com frutas secas, e da kutia, prato central da Santa Ceia ucraniana. Também ajudou na decoração da mesa e foi à procura do Didukh, símbolo que representa os ancestrais e a ligação da família com a terra, item que não conseguiu confeccionar por falta da matéria-prima, mas que fez questão de adquirir pronto.
A montagem da árvore de Natal foi outro momento marcante. A última vez que Yulia havia participado dessa tradição foi em 2005. Ao abrir as caixas guardadas pela família, encontrou os mesmos enfeites da infância. “Foi uma memória afetiva completa, com cheiros, cores e sensações”, contou. A ceia aconteceu após o surgimento da primeira estrela no céu, conforme manda a tradição. Neste ano, a família incluiu um prato a mais à mesa, gesto simbólico para convidar os antepassados a participarem da celebração, acompanhado de orações.
Após o jantar, Yulia seguiu com o pai para a missa de Natal na igreja principal da cidade. Com temperatura de –7 °C, a celebração teve início às 21h e, pela primeira vez, ela permaneceu durante toda a missa. As koliadky, canções natalinas tradicionais interpretadas por grupos de crianças, elas foram até a casa da família, mantendo o costume. Ao comparar a experiência com as lembranças da infância, Yulia percebeu mudanças ao longo dos anos e demonstrou preocupação com a perda gradual de algumas tradições, impactadas pelas transformações demográficas agravadas pela guerra, que levou muitos moradores a deixarem Ternopil e até mesmo o país.
Outro ponto destacado por ela foi a recente mudança no calendário religioso. Este é apenas o segundo ano em que o Natal passou a ser celebrado nos dias 24 e 25 de dezembro, deixando de ocorrer no início de janeiro, como no antigo calendário. A alteração fez do Natal a principal data festiva do período, antes ocupada pelo Ano Novo. Segundo Yulia, a mudança foi bem recebida por muitas famílias e trouxe um novo significado à data, fortalecendo seu valor cultural e espiritual.
O contexto da guerra também marcou as celebrações na cidade. Nos dias que antecederam o Natal, Ternopil não montou a tradicional árvore na praça central nem instalou brinquedos para as crianças. A decisão foi tomada após um ataque com míssil que atingiu a cidade em dezembro e deixou mais de 30 mortos. O município decretou luto, e a população compreendeu a medida. O Ano Novo, por sua vez, foi celebrado de forma simples, com um jantar em família e, à meia-noite, o acompanhamento do discurso do presidente Volodymyr Zelensky, desta vez, vivido de dentro do próprio país.
Além das festividades, o retorno reacendeu hábitos cotidianos. Yulia voltou a consumir pratos típicos como borsch, salo e Oselédets, alimentos que havia deixado de lado durante o período como imigrante. Para ela, o retorno às origens também passa pela mesa. No entanto, o aspecto que mais a emocionou foi o uso diário da língua ucraniana. Ela retomou palavras dialetais da região de Ternopil, muitas delas trazidas de forma bem-humorada pelo pai. “Passei a valorizar ainda mais a minha própria língua”, afirmou.
Essa valorização ganhou um significado especial durante uma visita recente a Curitiba, quando conversou em ucraniano com uma senhora que vive no Brasil há muitos anos. O diálogo chamou a atenção de um jovem de Prudentópolis, que reconheceu no ucraniano de Yulia a mesma forma de falar preservada na cidade paranaense. O episódio emocionou Yulia, que agradeceu à população local pela preservação da língua e das tradições ucranianas. Segundo ela, muitos dos imigrantes que se estabeleceram na região vieram justamente de Ternopil, o que cria um vínculo ainda mais profundo.
Ao final, Yulia deixou uma mensagem de reconhecimento e desejo de aproximação entre as comunidades. Destacou a importância de manter viva a cultura, a fé e o idioma, elogiou Prudentópolis por ser a primeira cidade do mundo a cooficializar a língua ucraniana e reforçou a necessidade de fortalecer os laços entre os ucranianos do Brasil e da Ucrânia. Para ela, preservar tradições, incentivar a literatura contemporânea e valorizar o trabalho de artesãos são caminhos para manter viva uma identidade que atravessa gerações e fronteiras.

Fotos: Arquivo pessoal Yulia Mysko