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01/04/26 - às 10:25
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Abril Azul é o mês dedicado à conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma pauta que ganha cada vez mais relevância também em Prudentópolis por envolver saúde, educação, direitos e convivência social. Mais do que iluminações simbólicas e campanhas nas redes sociais, o período convida a população a compreender melhor o autismo, romper preconceitos e fortalecer uma cultura de respeito às diferenças. O TEA é definido pelo Ministério da Saúde como uma condição do neurodesenvolvimento que afeta, em diferentes graus, a comunicação, a interação social e o comportamento. O termo “espectro” existe justamente porque não há um único jeito de ser autista: cada pessoa apresenta características, desafios e potencialidades próprias.
Entender isso é essencial para evitar generalizações. Há pessoas autistas que falam bastante e estudam ou trabalham com autonomia, enquanto outras precisam de apoio intenso para atividades do dia a dia. Também existem diferenças na sensibilidade sensorial, na forma de lidar com mudanças de rotina, na comunicação verbal e não verbal e no modo de estabelecer vínculos sociais. Por isso, especialistas e documentos oficiais têm priorizado a ideia de “nível de suporte” em vez de rótulos simplificados. Segundo a linha de cuidado mais recente do Ministério da Saúde, a avaliação deve considerar os impactos funcionais e o apoio necessário no cotidiano, e esse apoio pode variar ao longo da vida. 
Na prática, os chamados níveis de suporte costumam ser explicados em três faixas. O nível 1 indica necessidade de apoio, geralmente em situações nas quais a pessoa apresenta dificuldades para interação social, flexibilidade de rotina e organização, mas consegue realizar muitas atividades com maior independência. O nível 2 aponta necessidade substancial de apoio, com desafios mais evidentes de comunicação e adaptação, além de comportamentos repetitivos ou inflexibilidade mais marcantes. Já o nível 3 representa necessidade muito substancial de apoio, quando a pessoa pode ter maiores barreiras de comunicação, autonomia reduzida e necessidade frequente de suporte em diferentes contextos. Mesmo assim, esses níveis não definem o valor, a inteligência ou o futuro de ninguém: eles servem para orientar o cuidado e o tipo de apoio necessário.
Outro ponto importante é saber reconhecer sinais que podem merecer avaliação profissional. O Ministério da Saúde lista entre os sinais de alerta a ausência de contato visual ou de expressões faciais, não responder ao nome até os 12 meses, atraso na fala ou regressão de habilidades já adquiridas, pouco interesse por interações sociais, comportamentos repetitivos, resistência intensa a mudanças na rotina e hiper ou hipossensibilidade a sons, luzes e texturas. Esses sinais não fecham diagnóstico por si só, mas indicam a importância de procurar orientação especializada, especialmente quando aparecem em conjunto ou interferem no desenvolvimento.
É justamente aí que entra um cuidado fundamental: não é possível afirmar, olhando uma pessoa ou lendo uma lista na internet, que ela “é autista”. O diagnóstico é clínico e deve ser feito por profissionais habilitados, com avaliação do desenvolvimento, da comunicação, do comportamento e da funcionalidade. O Ministério da Saúde ressalta que o diagnóstico oportuno e o encaminhamento precoce para intervenções e apoio educacional podem trazer melhores resultados a longo prazo, principalmente na infância. Ao mesmo tempo, isso não significa que adolescentes, jovens e adultos não possam ser avaliados. Muitas pessoas só recebem diagnóstico mais tarde, depois de anos de sofrimento, incompreensão ou adaptação silenciosa.
No campo dos direitos, a legislação brasileira é clara ao reconhecer a pessoa com TEA como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Isso está previsto na Lei nº 12.764, conhecida como Lei Berenice Piana, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. A norma estabelece diretrizes para acesso à saúde, educação, inclusão social, proteção contra discriminação e atendimento multiprofissional, entre outras garantias. Em 2025, a lei ainda foi atualizada para especificar a nutrição adequada e a terapia nutricional para a pessoa autista.
Entre os instrumentos de identificação, existe a Ciptea, a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Em nível federal, ela foi criada pela Lei nº 13.977, com o objetivo de garantir atenção integral, pronto atendimento e prioridade no acesso a serviços públicos e privados, especialmente nas situações em que a deficiência não é imediatamente percebida. No Paraná, a carteira pode ser solicitada de forma gratuita por moradores do estado, por meio de sistema oficial. A função do documento é facilitar a identificação e o exercício de direitos, não expor a pessoa.
Muita gente também tem dúvida sobre “crachá”, colar ou cordão. O que existe no Brasil, em âmbito nacional, é o cordão de fita com desenhos de girassóis, instituído por lei como símbolo de identificação de pessoas com deficiências ocultas. Isso pode incluir pessoas autistas, entre outros grupos. Mas é importante deixar claro: o uso desse cordão é um recurso auxiliar de identificação, não uma obrigação. Da mesma forma, a Ciptea facilita o acesso e o reconhecimento de direitos, mas ninguém deixa de ser autista por não portar carteira, crachá ou cordão naquele momento. O documento e os símbolos existem para ajudar, não para condicionar dignidade ou respeito.
Quando se fala em inclusão, a sociedade ainda erra ao imaginar que acolher é apenas “ter paciência”. Na prática, inclusão significa entender que a pessoa autista pode precisar de adaptações reais: ambiente menos barulhento, comunicação mais objetiva, previsibilidade de rotina, tempo maior de processamento, respeito a sensibilidades sensoriais e atendimento humanizado em escolas, unidades de saúde, repartições e estabelecimentos privados. Como o próprio Ministério da Saúde destaca, as necessidades de apoio variam conforme a funcionalidade e o contexto de vida, o que exige avaliação singular e respostas individualizadas.
Abril Azul também ajuda a combater duas ideias equivocadas que ainda circulam. A primeira é a de que “todo autista é igual”, o que ignora completamente a noção de espectro. A segunda é a de que o autismo se resume à infância. Crianças autistas crescem, tornam-se adolescentes, adultos e idosos, e continuam precisando de direitos, respeito e suporte adequado. Em vez de procurar um padrão ideal de comportamento, o mais importante é enxergar cada pessoa na sua singularidade, compreendendo limites, habilidades e formas próprias de estar no mundo.
Para as famílias, a informação correta faz diferença desde os primeiros sinais até o acesso aos serviços. Escutar as preocupações de pais e responsáveis, acolher dúvidas sem julgamento e buscar avaliação profissional quando necessário são passos importantes para evitar atrasos no cuidado. O próprio material técnico do Ministério da Saúde destaca que as questões e queixas das famílias sobre o desenvolvimento infantil devem ser ouvidas com atenção. Em outras palavras, observar sinais não é exagero; muitas vezes, é o começo de um caminho de apoio e entendimento.
Em Prudentópolis, falar sobre Abril Azul é falar sobre convivência mais humana, escolas mais preparadas, serviços mais sensíveis e comunidade mais informada. O autismo não pode ser tratado apenas como um tema de campanha, mas como uma realidade que exige respeito diário. Com informação de qualidade, diagnóstico responsável, garantia de direitos e menos preconceito, o município avança na construção de uma sociedade mais inclusiva, em que cada pessoa autista seja reconhecida não por estereótipos, mas por sua dignidade, sua individualidade e seu direito de participar plenamente da vida em comunidade.