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30/12/25 - às 17:14
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Em meio às luzes piscantes, árvores artificiais e símbolos importados que marcam o Natal brasileiro contemporâneo, Prudentópolis preserva uma forma diferente de celebrar. Na cidade conhecida como “Pequena Ucrânia”, a decoração natalina segue caminhos próprios, profundamente ligados à fé, à terra e à memória dos antepassados. Entre pinheiros simples, trigo, palha, estrelas e bordados, o Natal ucraniano revela uma tradição que vai além do visual e se afirma como identidade cultural.
Ao entrar em muitas casas da comunidade ucraniana, é comum encontrar palha espalhada discretamente pelo chão ou colocada sob a mesa da ceia. O gesto remete diretamente ao nascimento de Jesus em uma manjedoura e simboliza humildade, simplicidade e ligação com o meio rural, base histórica da vida dos imigrantes ucranianos. Mais do que um ornamento, a palha representa a presença do sagrado no cotidiano e a lembrança de uma vida moldada pelo trabalho na terra.
O trigo também ocupa um lugar central nessa decoração. Associado à fertilidade, à prosperidade e à continuidade da vida, ele aparece em arranjos, feixes ou integrado a outros elementos simbólicos. Para além do significado agrícola, o trigo carrega um valor espiritual profundo, pois remete à gratidão pela colheita e à esperança de abundância no ano que se inicia. Em muitas famílias, esse elemento funciona ainda como um elo simbólico com os antepassados, reforçando a ideia de que o Natal é um momento de comunhão entre gerações.
Entre os símbolos mais tradicionais está o Didukh, um feixe de trigo amarrado que costuma ser colocado em local de destaque na casa durante o período natalino. O nome pode ser traduzido como “avô do espírito” e representa a presença dos antepassados no lar. A tradição indica que o Didukh é levado para dentro da casa na véspera de Natal como forma de acolher aqueles que vieram antes, expressando respeito, memória e continuidade familiar.
Outro elemento marcante é a estrela, símbolo diretamente ligado à fé cristã. No Natal ucraniano, ela representa a Estrela de Belém, que guiou os Reis Magos até o local do nascimento de Cristo. Em Prudentópolis, estrelas artesanais feitas de papel, madeira ou palha ainda são utilizadas na decoração das casas e nas celebrações comunitárias. Mais do que um enfeite, a estrela simboliza luz, orientação espiritual e esperança.
Os bordados ucranianos também fazem parte do cenário natalino. Toalhas de mesa, caminhos e panos bordados são usados especialmente durante a ceia. Cada padrão geométrico ou floral carrega significados específicos relacionados à proteção, à vida e à espiritualidade, além de expressar a identidade regional e familiar. Os bordados, muitas vezes produzidos e preservados por gerações, transformam a decoração em um registro vivo da história da comunidade.
Em Prudentópolis, essas práticas atravessaram o oceano junto com os imigrantes ucranianos e continuam sendo transmitidas de geração em geração. A decoração natalina, nesse contexto, não busca excesso ou espetáculo, mas sentido. Cada elemento presente no ambiente carrega uma história, um valor e uma memória coletiva.
Em um período marcado por transformações culturais e pela dor de um país que hoje enfrenta a guerra, manter essas tradições também se torna um ato de resistência e afirmação identitária. Entre pinheiros e trigo, o Natal ucraniano em Prudentópolis e na diáspora segue contando histórias de fé, pertencimento e esperança.