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03/12/25 - às 14:29
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As coloridas bonecas de madeira que se encaixam uma dentro da outra, conhecidas como matrioshkas ou “babushkas”, são frequentemente tratadas como lembrança típica da Ucrânia, mas sua origem é russa. Criadas no fim do século XIX, elas se tornaram símbolo da maternidade, da família e da chamada “alma russa”, enquanto a cultura ucraniana manteve outras referências artesanais e espirituais próprias, hoje em processo de resgate e valorização.
A primeira matrioshka surgiu por volta de 1890, em Moscou, inspirada em um brinquedo japonês que representava o deus Fukurum, ligado à felicidade. O modelo foi levado à oficina da família Mamontov e desenvolvido pelo mestre Vasily Zvezdochkin e pelo artista Sergei Malyutin, que pintou uma camponesa com lenço na cabeça. A peça original tinha oito figuras, incluindo um bebê, e recebeu o nome “Matryona”, derivado do latim mater (“mãe” ou “senhora do lar”), reforçando a associação à mulher e à família.
Produzidas em larga escala na oficina “Educação Infantil”, as matrioshkas ganharam espaço como lembrança nacional russa, especialmente no período da União Soviética. Turistas estrangeiros passaram a levar as bonecas como símbolo do país, e elas se consolidaram como uma das imagens mais conhecidas do artesanato russo. Nada, porém, em sua criação ou significado original, está ligado à tradição religiosa ou à espiritualidade ucraniana.
A confusão se intensificou durante o regime soviético, quando o governo tentou uniformizar as culturas das repúblicas sob uma identidade única, impondo símbolos russos e apagando manifestações locais. Nesse contexto, elementos russos, como as próprias matrioshkas, foram difundidos em todo o território, e muitos objetos passaram a ser vendidos como se fossem “lembranças da Ucrânia”. Ao longo das décadas, o mundo acabou tratando “russo” e “ucraniano” quase como sinônimos, o que ajudou a perpetuar o equívoco.
A Ucrânia, no entanto, possui um conjunto próprio de símbolos artesanais, carregados de história e significado. Entre eles estão as motankas, bonecas sem rosto que representam proteção e energia feminina, as pessankas, ovos ricamente decorados com motivos tradicionais e a pintura de Petrikivka, reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial. As tradicionais camisas bordadas, conhecidas como vyshyvankas, trazem desenhos que remetem à força, liberdade e identidade nacional.
Atualmente, artistas, pesquisadores e lideranças culturais ucranianas têm se dedicado a resgatar esses elementos autênticos, após décadas de apagamento. A valorização das motankas, das pessankas e da arte popular é vista como forma de resistência cultural e afirmação identitária, especialmente em um cenário de conflitos e disputas geopolíticas que recolocam a questão nacional no centro do debate.
Ao distinguir que a matrioshka é um símbolo russo e que a motanka é verdadeiramente ucraniana, especialistas defendem que não se trata apenas de um detalhe folclórico, mas de reconhecer a história de um povo e combater a diluição de suas referências. Para eles, preservar essas diferenças é uma maneira de honrar a memória, fortalecer a cultura ucraniana e resistir a processos de apagamento e colonização cultural.