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12/12/25 - às 15:01
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O Natal ucraniano segue como uma das manifestações culturais e religiosas mais preservadas entre descendentes no Brasil, especialmente em cidades com forte colonização, como Prudentópolis. Mais do que uma data comemorativa, a celebração representa um profundo reencontro com a fé cristã oriental, a memória dos antepassados e os valores familiares transmitidos ao longo de gerações, tendo como ponto central a Santa Ceia com doze pratos e a vivência espiritual que envolve casa, comunidade e igreja.
A preparação para o Natal começa semanas antes, durante o período litúrgico chamado Pelêpivka, iniciado em 14 de novembro, marcado por oração, reflexão, jejum e penitência. Nesse tempo, destaca-se também a Festa de São Nicolau, celebrada em 6 de dezembro, quando as crianças recebem presentes como símbolo da recompensa pelo bem praticado, preservando uma tradição com forte caráter educativo e religioso.
Na véspera, conhecida como Sviatei Vechir (Noite Santa), as famílias se reúnem para a Santa Ceia, realizada somente após o surgimento da primeira estrela no céu, em referência à Estrela de Belém. A casa e a propriedade passam por uma preparação cuidadosa, simbolizando acolhimento e respeito ao nascimento de Cristo. A mesa é forrada com palha e coberta por toalha bordada, representando a manjedoura, e recebe elementos como trigo, alho e velas, que expressam proteção, trabalho, fé e a presença da Santíssima Trindade.
Um dos rituais mais simbólicos é a entrada do Didukh, feixe de trigo levado pelo dono da casa e colocado em local de destaque. Ele representa os antepassados, a continuidade da família, a gratidão pela colheita e a ligação com a terra. Durante a oração inicial, o chefe da família saúda os presentes com a tradicional proclamação “Khrestós Narodêvcia!” (Cristo nasceu), respondida por todos com “Slavimo Iohó!” (Glorifiquemo-lo).
A ceia é composta por doze pratos, preparados sem carne, simbolizando os doze apóstolos. Entre eles estão:
1º Kutiá: grãos de trigo cozido adoçado com mel, passas de uvas e outras frutas, nozes ou castanhas e sementes de papoula. O trigo representa a fartura, o progresso, o bem-estar. O mel transmite a ideia de que a vida deve ser temperada com a alegria da saúde, do bem-estar, na amizade, paz e unidade familiar. Simboliza o trabalho do agricultor e das abelhas. Também representa os entes queridos que faleceram, criando um elo entre os vivos e os mortos.
2º Borchtch: sopa de beterraba e repolho, servida com pão de centeio.
3º Mlêntsi ou Nalésneke: um tipo de panqueca.
4º Varenyky: espécie de pastel, tipo ravióli, que antigamente era recheado com repolho, trigo-sarraceno (mourisco), ameixas, geleias ou sementes de papoula. Na região da Galícia, Ucrânia Ocidental, é chamado de períh, enquanto na Ucrânia Oriental períh é uma espécie de pãozinho branco assado no forno contendo algum recheio. Embora o recheio de batata com requeijão tenha-se tornado popular entre nós, na ceia de Natal era raramente usado, uma vez que para nossos ancestrais, há centenas e centenas de anos, a batata era desconhecida, chegando à Ucrânia somente por volta dos séculos XVII e XVIII.
5º Holubtsí: rolinhos de repolho, uma espécie de charuto, com trigo-sarraceno, cebola e cogumelos, enrolado com folha de repolho. É cozido no vapor ou em banho-maria. Na Ucrânia, são preparados com folhas de repolho em conserva, por causa da neve, sendo que em outras estações do ano são usadas folhas frescas de repolho ou de beterraba.
6º Krejalkê: espécie de repolho cozido, temperado com água, sal e iguarias.
7º Peixe em conserva.
8º Várias espécies de pão, biscoitos de mel.
9º Kácha: espécie de cevada moída, preparada com iguarias.
10º Hrebê: espécie de cogumelos cozidos, preparados em forma de salada ou em forma de molho, para serem consumidos com os demais pratos.
11º Kalatch ou Kolatch: pão doce; em algumas regiões, com recheio de doces de frutas. O pão representa a colheita do ano e é adornado com uma vela que iluminará a mesa e deve permanecer sobre a mesma durante três dias.
12º Kómpot ou Úzvar: compota feita das mais variadas frutas guardadas em conserva desde o verão: cereja, ameixa, pera, maçã, uva. Em algumas regiões, é preparada com bastante calda, de forma que pode ser usada também como suco, substituindo as bebidas alcoólicas.
Podem ser servidos outros pratos:
Kapusniák: sopa de repolho
Perijkê: pasteizinhos assados recheados com repolho ou com doces de frutas
Pepinos e outros mais
Cada alimento carrega significados ligados à fartura, à união familiar, à memória dos falecidos e à esperança de um novo ciclo abençoado.
Durante a refeição, entoam-se as kólhades, cantos natalinos que narram o nascimento de Jesus e expressam alegria e fé. É comum também deixar um lugar vazio à mesa, em memória dos que já partiram ou como sinal de acolhida a quem não pôde estar presente.
No período natalino, grupos de cantores percorrem as casas com estrelas, levando votos de saúde, prosperidade e paz por meio das kólhadas e do vertep, encenação do nascimento de Cristo. As visitas reforçam os laços comunitários e mantêm viva a transmissão oral e cultural da tradição.
A preservação do Natal ucraniano vai além do aspecto religioso. Ela representa a valorização da diversidade cultural no Brasil, contribuindo para o fortalecimento das identidades étnicas e para o enriquecimento da sociedade como um todo. Em meio às transformações contemporâneas, a celebração permanece como um testemunho de fé, espiritualidade e pertencimento, reafirmando o legado dos imigrantes ucranianos e sua contribuição histórica e cultural ao país.
Celebrado com simplicidade, profundidade espiritual e forte sentido comunitário, o Natal ucraniano continua sendo um momento de união, memória e esperança, reafirmando, ano após ano, a mensagem que ecoa nas casas e igrejas: Cristo nasceu. Glorifiquemo-lo.
Христос рождається! – Славімо його!

Fonte: Metropolia Católica Ucraniana São João Batista.