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01/09/26 - às 11:18
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Setembro começa com um convite que precisa ultrapassar as campanhas, as cores e as redes sociais: prestar atenção em quem está ao nosso lado. O Setembro Amarelo 2026, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção do suicídio e valorização da vida, traz como tema “Escutar é estar presente”. A proposta do Centro de Valorização da Vida (CVV) é lembrar que, diante de alguém que enfrenta sofrimento emocional, oferecer uma escuta atenta, respeitosa e sem julgamentos pode ser o primeiro passo para que essa pessoa encontre apoio e não precise enfrentar a dor sozinha.
Falar sobre prevenção do suicídio ainda é difícil para muitas famílias e comunidades. Durante muito tempo, o assunto foi cercado por silêncio, medo e preconceito. O Setembro Amarelo surgiu justamente para ampliar esse debate e incentivar uma sociedade mais preparada para reconhecer o sofrimento, acolher quem precisa e encaminhar pessoas em situação de vulnerabilidade para os serviços de ajuda.
O movimento começou no Brasil em 2015, tendo o CVV como um de seus principais mobilizadores. A escolha de setembro está relacionada ao Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, celebrado em 10 de setembro. Desde então, a campanha passou a ocupar espaços públicos, escolas, empresas, instituições de saúde, meios de comunicação e redes sociais com uma mensagem central: prevenção também significa conversar, acolher e não ignorar sinais de sofrimento.
O tema deste ano coloca uma palavra simples no centro da discussão: escuta.
Em uma rotina marcada pela pressa, pelo excesso de informações e por relações cada vez mais mediadas pelas telas, muitas vezes existe pouco espaço para uma conversa realmente atenta. Perguntar “você está bem?” é importante, mas ouvir a resposta também é.
Nem sempre quem sofre consegue explicar exatamente o que está acontecendo. Algumas pessoas se afastam, mudam seus hábitos, deixam de fazer coisas que antes proporcionavam prazer ou passam a demonstrar desesperança. Outras podem falar diretamente sobre a própria dor. Esses sinais não devem ser tratados como exagero, drama ou tentativa de chamar atenção.
Escutar não significa ter todas as respostas. Também não significa assumir o papel de profissional de saúde. Muitas vezes, significa simplesmente permanecer ao lado da pessoa, permitir que ela fale e demonstrar que aquilo que sente merece ser levado a sério.
A campanha do CVV destaca justamente essa presença. Em vez de respostas prontas ou julgamentos, a proposta é criar um espaço seguro para que a pessoa possa falar sobre aquilo que está vivendo.
Uma das dificuldades da prevenção está no fato de que nem sempre é possível perceber o sofrimento de alguém apenas pela aparência.
Uma pessoa pode continuar trabalhando, estudando, cuidando da família, cumprindo compromissos e conversando normalmente enquanto enfrenta uma profunda crise emocional.
Por isso, a prevenção não deve depender apenas de esperar que alguém peça ajuda. Demonstrar interesse, manter contato com pessoas que estão se isolando e abrir espaço para conversas sinceras também são formas de cuidado.
Mudanças importantes de comportamento, isolamento social, alterações significativas no sono ou no apetite, perda de interesse por atividades que antes faziam parte da rotina e manifestações de desesperança merecem atenção. Quando alguém demonstra sofrimento intenso ou fala sobre morte, desaparecimento ou sobre não querer mais viver, a situação deve ser levada a sério e a busca por ajuda profissional deve ser incentivada.
O mais importante é não minimizar a dor do outro.
Frases como “isso é só uma fase”, “você precisa ser forte” ou “tem gente passando por coisa pior” podem fechar ainda mais o espaço para a conversa. Acolher é reconhecer que cada pessoa experimenta suas dificuldades de maneira diferente.
Falar sobre Setembro Amarelo não significa falar somente sobre momentos extremos. A valorização da vida também passa pela construção cotidiana de relações nas quais as pessoas se sintam importantes, respeitadas e capazes de procurar ajuda.
Família, amigos, escolas, empresas, profissionais de saúde e toda a comunidade podem participar dessa rede de proteção.
Uma conversa pode revelar que alguém está enfrentando dificuldades. Um convite para tomar um café pode quebrar um período de isolamento. Uma ligação pode mostrar que uma pessoa não foi esquecida. Uma atitude de acolhimento pode abrir caminho para que ela aceite procurar ajuda.
Nenhuma dessas ações substitui o atendimento profissional quando ele é necessário, mas todas podem contribuir para aproximar alguém de uma rede de apoio.
Ainda existe o preconceito de que pedir ajuda representa fraqueza. A realidade é justamente o contrário: reconhecer que não está conseguindo enfrentar determinada situação sozinho pode ser um passo importante para começar a cuidar de si.
Psicólogos, psiquiatras, médicos, equipes da atenção básica e serviços especializados podem oferecer diferentes formas de acompanhamento de acordo com cada situação. Na rede pública, a porta de entrada pode ser uma Unidade Básica de Saúde, que pode orientar e encaminhar o paciente conforme a necessidade.
Em situações de sofrimento emocional, também existe o Centro de Valorização da Vida. O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, além de atendimento por outros canais.
É importante lembrar que o CVV oferece apoio emocional, mas não substitui atendimento médico ou psicológico de emergência.
Em uma situação de risco imediato, a orientação é procurar um serviço de emergência ou acionar o atendimento de urgência da região.
O Setembro Amarelo concentra as ações de conscientização durante um mês, mas a prevenção do suicídio não pode terminar quando setembro chega ao fim.
A escuta precisa existir em outubro, novembro, dezembro e durante todo o ano.
É preciso olhar para além das campanhas e compreender que saúde mental também faz parte da saúde. Precisamos criar ambientes onde falar sobre sofrimento não seja motivo de vergonha e onde pedir ajuda seja visto como uma atitude de cuidado.
O tema de 2026, “Escutar é estar presente”, reforça uma verdade que pode parecer simples, mas tem grande significado: estar fisicamente perto de alguém não é necessariamente estar presente. Presença também é atenção. É deixar o celular de lado. É olhar nos olhos. É não interromper. É não transformar a dor do outro em julgamento. É saber que nem sempre precisamos encontrar uma solução imediata — às vezes, precisamos apenas permitir que alguém diga o que está sentindo.
O Setembro Amarelo não é apenas sobre uma cor. É sobre pessoas.
É sobre quem está sofrendo em silêncio, mas também sobre quem pode perceber, ouvir e ajudar. É sobre famílias que precisam aprender a conversar, amigos que precisam estar atentos, profissionais que precisam acolher e uma sociedade que precisa entender que nenhuma dor deve ser tratada com indiferença.
Que setembro seja um mês de informação, mas principalmente de presença.
Que a pergunta “você está bem?” venha acompanhada da disposição para ouvir a resposta.
E que, quando alguém disser que não está bem, encontre do outro lado alguém disposto a escutar, acolher e ajudar a buscar o caminho necessário.
Porque, em muitos momentos, cuidar começa simplesmente quando alguém decide permanecer e ouvir.
