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04/09/26 - às 10:15
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A agricultura continua sendo uma das principais bases da economia de Prudentópolis, com forte presença da agricultura familiar e produção diversificada de feijão, soja, milho, trigo, fumo e erva-mate. No entanto, manter uma pequena propriedade produtiva exige enfrentar uma conta que ficou mais pesada: sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, máquinas, mão de obra e outros custos precisam ser pagos antes da colheita, enquanto o preço recebido pelo produtor depende do mercado. Dados recentes do setor mostram que essa relação entre custo e preço é um dos principais desafios enfrentados pelos agricultores paranaenses em 2026.
Em Prudentópolis, o cenário merece atenção justamente pela importância da agricultura familiar. O município possui centenas de comunidades rurais e uma produção que movimenta não apenas as propriedades, mas também o comércio, as cooperativas, os transportadores, as revendas de insumos e diversos outros setores da economia local.
Para colocar uma lavoura no campo, o produtor precisa investir antecipadamente. É necessário preparar a terra, comprar sementes, adquirir fertilizantes e defensivos, utilizar máquinas e equipamentos, contratar serviços quando necessário e arcar com combustível e transporte.
Levantamento da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), divulgado em agosto de 2026 com dados de maio, mostra a dimensão desses custos. Para as produtividades de referência utilizadas no estudo, o custo total estimado foi de R$ 9.036,78 por hectare para o milho de primeira safra, R$ 6.418,31 para o milho de segunda safra, R$ 6.399,91 para a soja e R$ 5.572,66 para o trigo. Os fertilizantes aparecem como o principal componente dos custos, seguidos pelas sementes.
A Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab) também acompanha trimestralmente os custos de produção das principais atividades agropecuárias do Paraná, utilizando informações sobre os preços pagos pelos produtores na compra de insumos e outros fatores necessários para produzir.
O problema para o pequeno produtor não está somente no valor dos insumos. Existe também a relação entre aquilo que ele gasta e quanto consegue receber pela produção.
Em maio de 2026, os preços médios recebidos pelos produtores paranaenses foram de R$ 52,66 pela saca de milho, R$ 118,95 pela saca de soja e R$ 71,05 pela saca de trigo, segundo levantamento da Ocepar. Na comparação com o ano anterior, houve aumento nos preços de diversos insumos, como adubos, herbicidas, sementes, combustíveis, fungicidas e tratores.
O levantamento calculou ainda quantas sacas seriam necessárias para cobrir apenas os custos variáveis da produção: 109 sacas por hectare no milho de primeira safra, 74 no milho de segunda safra, 29 na soja e 50 no trigo. O estudo aponta redução do poder de troca do produtor de milho e trigo em relação a 2025, enquanto a soja apresentou melhora.
Isso ajuda a explicar uma situação comum no campo: produzir mais não significa necessariamente ganhar mais. Se os custos aumentam em ritmo superior ao preço de venda, a margem de quem planta diminui.
Para uma propriedade maior, determinados custos podem ser diluídos em uma área extensa ou em um volume maior de produção. Na pequena propriedade, a realidade é diferente.
O agricultor familiar normalmente trabalha com uma área limitada e, muitas vezes, depende diretamente do resultado de uma ou poucas safras para manter a renda da família. Uma quebra de produtividade provocada por excesso de chuva, estiagem, geada, doenças ou pragas pode comprometer significativamente o resultado daquele ano.
Além disso, nem todo produtor possui maquinário próprio. O pagamento de horas-máquina, plantio, pulverização, colheita e transporte representa mais uma despesa que precisa entrar na conta.
A produção agrícola depende diretamente das condições climáticas. Em 2026, o Paraná vem sendo influenciado pelo fortalecimento do fenômeno El Niño, que aumenta a possibilidade de períodos de chuva acima da média. O excesso de umidade pode favorecer determinadas culturas, mas também dificultar operações de manejo e colheita e aumentar a ocorrência de doenças fúngicas.
Para o pequeno produtor, o risco climático pode ser ainda maior quando existe pouca capacidade financeira para absorver uma perda.
É por isso que uma decisão de plantio não considera apenas o preço anunciado para determinado produto. O agricultor precisa avaliar o custo da lavoura, a expectativa de produtividade, o clima, o mercado, a disponibilidade de mão de obra e a possibilidade de comercialização.
Apesar das dificuldades, deixar de plantar não é uma realidade generalizada no município. Prudentópolis continua tendo uma agricultura diversificada e relevante.
Um dos exemplos mais expressivos é a fumicultura. Na safra 2024/2025, o município produziu aproximadamente 13,67 mil toneladas de tabaco, com 1.621 famílias produtoras, segundo dados da Afubra. Prudentópolis ficou na 10ª posição entre os municípios brasileiros produtores de tabaco e na 4ª colocação no Paraná.
O tabaco possui características diferentes de culturas como milho, soja e trigo, inclusive por envolver sistemas de comercialização e integração específicos. Por isso, não é possível aplicar a mesma análise econômica a todas as propriedades.
Ainda assim, a realidade mostra que a agricultura prudentopolitana é formada por diferentes cadeias produtivas e que as decisões de cada agricultor variam conforme a cultura, tamanho da propriedade, estrutura disponível e mercado.
Não existe uma única causa. Em uma pequena propriedade, a decisão pode ser resultado da combinação de vários fatores:
Portanto, dizer que pequenos produtores estão deixando de plantar exclusivamente por causa de uma “taxa” ou de um único preço seria uma simplificação. O cenário é resultado principalmente da relação entre custo, risco e retorno da atividade.
A permanência das famílias no campo depende de uma série de fatores. Assistência técnica, acesso ao crédito, políticas de comercialização, organização por meio de cooperativas e associações, mecanização adequada à pequena propriedade e diversificação da produção podem ajudar a reduzir riscos.
Em Prudentópolis, a própria Prefeitura mantém uma Secretaria Municipal de Agricultura voltada ao setor, e o município também possui iniciativas relacionadas à organização da produção e ao fortalecimento da agricultura local.
O desafio é fazer com que produzir continue sendo economicamente viável para quem possui poucos hectares e depende diretamente da terra para sustentar a família.
A questão, portanto, não é apenas se o agricultor vai plantar. É saber se, depois de pagar todas as despesas, ainda haverá renda suficiente para que ele queira continuar plantando no próximo ano.
E essa é uma discussão que ultrapassa os limites da propriedade rural: quando um pequeno produtor deixa de produzir, os efeitos podem chegar ao comércio, às cooperativas, ao transporte e à própria economia das comunidades do interior de Prudentópolis.
