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10/09/26 - às 16:43
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Há 218 anos, em 10 de setembro de 1808, começava a circular no Rio de Janeiro a Gazeta do Rio de Janeiro, considerada pela Biblioteca Nacional o primeiro jornal publicado e impresso no Brasil. Produzida pela então Impressão Régia, a publicação surgiu poucos meses depois da chegada da corte portuguesa ao país e representou o início oficial da imprensa em território brasileiro. A data também ficou historicamente associada ao Dia Nacional da Imprensa, embora essa comemoração tenha sido transferida, em 1999, para 1º de junho, em referência ao Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, publicado em Londres em 1808.
A criação da Gazeta do Rio de Janeiro está diretamente ligada à transferência da corte portuguesa para o Brasil, em 1808. Antes disso, a impressão de jornais e livros era fortemente restringida na colônia. Com a chegada da família real, equipamentos tipográficos que haviam sido adquiridos pela Coroa portuguesa na Inglaterra foram trazidos para o Rio de Janeiro.
Em 13 de maio de 1808, foi criada oficialmente a Impressão Régia. O decreto determinava que a oficina seria utilizada para imprimir legislação, documentos diplomáticos e outras obras autorizadas pelo governo. A estrutura seria responsável, poucos meses depois, pela produção do primeiro jornal impresso no país.
O primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro saiu em um sábado, 10 de setembro de 1808. A edição tinha quatro páginas, em formato pequeno, e inicialmente foi anunciada como uma publicação semanal. Já a partir da segunda edição, passou a circular duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos sábados.
A publicação era redigida inicialmente por Frei Tibúrcio José da Rocha. Mais tarde, o jornal passou a ter entre seus responsáveis Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, apontado por fontes históricas como o primeiro jornalista profissional do Brasil.

A primeira página trazia no alto o nome “Gazeta do Rio de Janeiro”, acompanhado da indicação “N.º 1” e da data “Sábado 10 de Setembro de 1808”. A publicação também apresentava uma epígrafe em latim, retirada de Horácio:
“Doctrina sed vim promovet insitam, rectique cultus pectora roborant.”
A Biblioteca Nacional traduz o sentido da frase como uma ideia de que a instrução estimula a força natural e o cultivo da virtude fortalece o caráter.
Mas o conteúdo daquela primeira edição estava muito distante do que hoje se entende como um jornal independente.
A Gazeta tinha forte ligação com a estrutura do governo português e funcionava como um veículo de divulgação dos interesses da corte. Suas páginas reuniam informações sobre acontecimentos políticos e militares na Europa, principalmente relacionados às Guerras Napoleônicas, além de notícias sobre a situação dos príncipes europeus, decisões da monarquia e acontecimentos relacionados à corte instalada no Rio de Janeiro.
A primeira edição também trazia anúncios. Entre eles, havia informações comerciais e ofertas de produtos e imóveis. Um dos anúncios publicados naquele dia informava sobre a venda de uma “morada de cazas de sobrado” localizada na região de Santa Rita, no Rio de Janeiro. Outro comunicado avisava o público sobre a periodicidade da publicação e o sistema de assinaturas.
Um dos textos da edição inaugural tratava justamente da guerra que envolvia Portugal e outras nações europeias. O periódico reproduzia informações provenientes de jornais estrangeiros e apresentava uma visão claramente contrária às forças de Napoleão Bonaparte, destacando os conflitos e os efeitos da guerra na Europa. Estudos históricos mostram que o primeiro número foi bastante concentrado na situação política e militar europeia.
Isso ajuda a entender uma característica fundamental daquela imprensa: o primeiro jornal produzido no Brasil não nasceu como um veículo independente, mas dentro de uma estrutura ligada à própria Coroa portuguesa.
A resposta exige uma pequena ressalva histórica.
A Gazeta do Rio de Janeiro era ligada à Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e divulgava informações de interesse da monarquia portuguesa. A Biblioteca Nacional a identifica como órgão oficial do governo português durante a permanência de Dom João no Brasil.
Ao mesmo tempo, o próprio periódico procurava se apresentar de maneira diferente. Em sua primeira publicação, havia uma explicação segundo a qual, embora a Gazeta pertencesse por privilégio aos oficiais da Secretaria de Estado, isso não significava que todo o conteúdo fosse oficialmente assumido pelo governo.
Na prática, porém, a publicação estava inserida no sistema político da monarquia e sofria as limitações próprias daquele período. A imprensa brasileira ainda estava longe da liberdade editorial que seria construída ao longo dos séculos seguintes.
Existe uma importante diferença que costuma gerar confusão.
O Correio Braziliense, criado por Hipólito José da Costa, começou a circular antes da Gazeta, em 1º de junho de 1808. No entanto, era produzido e impresso em Londres, na Inglaterra. Por isso, a Gazeta do Rio de Janeiro é reconhecida como o primeiro jornal impresso no território brasileiro.
O Correio Braziliense tinha uma posição muito mais crítica em relação à monarquia portuguesa e defendia mudanças políticas. A Gazeta, por sua vez, estava ligada à estrutura da corte.
Essa diferença é importante porque mostra que o nascimento do jornalismo brasileiro não aconteceu a partir de uma única publicação. Houve, desde o início, uma disputa entre diferentes formas de produzir e interpretar as informações.
Mais do que lembrar uma publicação antiga, 10 de setembro representa a longa trajetória do jornalismo brasileiro.
Em 1808, uma notícia dependia de tipos móveis, tinta, papel, máquinas de impressão e dias ou semanas para que uma informação pudesse chegar aos leitores. Hoje, uma ocorrência registrada em uma cidade pode ser publicada em poucos minutos e alcançar milhares de pessoas por sites, redes sociais, aplicativos, vídeos e transmissões ao vivo.
A tecnologia mudou completamente a maneira de fazer jornalismo, mas algumas responsabilidades permanecem.
Apurar. Conferir. Contextualizar. Ouvir diferentes lados. Separar informação de opinião. Corrigir quando necessário. E colocar o interesse público acima da velocidade.
A própria Biblioteca Nacional destaca que os periódicos são fundamentais para compreender a sociedade e os acontecimentos de diferentes épocas. Os jornais não apenas registram a história: eles também ajudam a construir os significados que uma sociedade atribui aos acontecimentos.
Essa responsabilidade ganhou ainda mais peso em uma época marcada pela circulação acelerada de informações, pelas redes sociais e pela desinformação. O jornalista contemporâneo precisa lidar simultaneamente com a necessidade de informar rapidamente e com a obrigação de verificar aquilo que será publicado.
A Gazeta do Rio de Janeiro começou com apenas quatro páginas e uma circulação limitada. Ainda assim, aquele primeiro exemplar abriu caminho para uma transformação profunda na sociedade brasileira.
Ao longo dos anos, os jornais passaram a publicar notícias das cidades, informações políticas, acontecimentos internacionais, anúncios comerciais, assuntos econômicos e fatos do cotidiano. A imprensa tornou-se também uma fonte histórica para entender como as pessoas viviam, quais eram os conflitos de cada período e quais ideias circulavam na sociedade.
A Gazeta continuou sendo publicada durante anos e chegou ao fim de sua trajetória em 1822, depois de milhares de páginas produzidas ao longo de sua existência.
Hoje, o jornalismo já não depende do papel para existir. Jornais impressos dividem espaço com portais de notícias, televisão, rádio, podcasts, videocasts, redes sociais e transmissões em tempo real.
Mas a essência da atividade continua relacionada a uma necessidade que já existia em 1808: a sociedade precisa de informações para compreender o que acontece ao seu redor.

A história da Gazeta do Rio de Janeiro também mostra que jornalismo e poder sempre tiveram uma relação complexa. O primeiro periódico impresso no Brasil estava ligado à estrutura da monarquia e ajudava a divulgar a visão dos acontecimentos que interessava à corte.
Ao longo dos séculos, a imprensa brasileira conquistou novos espaços, passou por períodos de censura, enfrentou governos autoritários, acompanhou mudanças políticas e sociais e consolidou princípios profissionais que hoje são fundamentais para o exercício do jornalismo.
Por isso, lembrar o nascimento da imprensa brasileira não significa apenas celebrar o passado.
Significa reconhecer a responsabilidade de quem, todos os dias, transforma acontecimentos em informação e informação em conhecimento para a sociedade.
Do papel impresso em 1808 às telas dos celulares em 2026, mudaram as ferramentas, a velocidade e os formatos. O compromisso de buscar a verdade, fiscalizar o poder e dar ao cidadão condições para compreender a realidade continua sendo um dos maiores sentidos do jornalismo.
Hemeroteca Digital Brasileira — reprodução da edição nº 1, de 10 de setembro de 1808. (hemeroteca-pdf.bn.gov.br)
